O Guardião

médico de asas
Image by Tumisu from Pixabay

Soube que seria médico muito novo, tinha 4 ou 5 anos.

Minha avó foi uma grande mulher, comandava a família, era a matriarca, respeitada e amada por todos.

Éramos uma grande família e ao redor dela sempre muito unidos.

As festas frequentes juntavam todos e havia grande proximidade entre tios, primos e netos.

Acontece que tendo nascido no dia de seu aniversário, eu era o seu preferido, ela me considerava quase como um presente seu, e portanto, inventou que eu seria médico.

Passou a dizer a todos, dizia sempre e como ninguém discordava de minha avó, até eu acreditei.

O tempo foi passando e se surgisse o assunto, já vinha alguém sugerindo uma especialidade.

Mas na maioria das vezes ela dizia que eu seria cirurgião, então olhava no espelho, puxava a pele de seu rosto em direção às  orelhas e dando uma esticadinha, dizia: “quando você for cirurgião vai me fazer uma plástica assim!”.

Era muito vaidosa.

Por todas as tias e primas eu era sempre lembrado de que no futuro, quando médico, cuidaria de todas elas e na medida em que o tempo foi passando, um pacto de sangue ia se formando: eu nunca pensei em ser outra coisa, elas nunca pensaram que eu as decepcionaria.

Como tinha que ser, me formei médico, tornei-me cirurgião, ginecologista especialista em câncer e mastologista.

Fui médico de toda a minha família, cuidei de todos os meus parentes, perdi muitos para a velhice e outros para a doença incurável, mas tive a chance de evitar que alguns se fossem antes da hora.

Tive a chance de cuidar das pessoas que mais amei. Mais do que tudo, cuidei da minha avó.

Não houve resfriado que eu não tivesse tratado, dores de todos os tipos e em todos os lugares, todos os dias, todas as horas e todas as noites.

Foi assim por muito tempo e então aos 100 anos ela caiu. Quebrou a perna, o que naquela idade era muito sério e eu soube naquele instante que ela morreria.

Não havendo outra alternativa ela foi pra cirurgia e eu sabia que ela não suportaria.

Entrei com minha avó no centro cirúrgico, enquanto o ortopedista operava eu segurava sua mão.

Nunca vi tanta coragem. Sorriu pra mim sem qualquer preocupação e com aqueles olhos azuis dentro dos meus, enfim me disse: “ Você sempre cuidou de mim, que bom médico você foi”.

Não soube o que dizer, beijei sua testa sem falar nada e ela apertou minha mão que segurava a sua.

O tempo passou e  então alguém disse: “ último ponto, a cirurgia acabou!”.

Quase acreditei, mas aí senti sua mão afrouxar, seus olhos se fecharam e seu sorriso desapareceu de seu rosto.

Minha avó se foi como eu previa, se foi como tinha que ir, se foi, após sobreviver às guerras do século 20, se foi após sobreviver à um câncer e ao reumatismo, se foi aos 100 anos, se foi segurando minha mão.

Já se passaram 10 anos, tenho 30 anos de formado, ajudei algumas mulheres em momentos difíceis, umas ajudei muito, outras ajudei menos e outras apenas amenizei a dor.

Mas se bem me recordo, aliás tenho certeza, jamais soltei a mão de nenhuma. Não decepcionaria a minha avó.

Dr. Alexandre Genis Ghelman

Compartilhe este post com seus amigos:
Dê sua opinião:
0 0

Comente!

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

pt_BRPortuguese
pt_BRPortuguese