Mulheres Inspiradoras: A Iluminada

Gabriela Callil Rua

Uma jornada que me trouxe de volta para mim.

Há cerca de 10 anos eu conheci na pele o que os especialistas costumam diagnosticar como Síndrome do Pânico. Na época, eu vivia no Rio de Janeiro, ainda não tinha filhos e quase toda a minha energia era dedicada ao trabalho. Dentre as minhas responsabilidades, estava o acompanhamento dos projetos sociais da empresa em comunidades, presídios e hospitais, um trabalho que passava pelo cuidado, pela cura, pela assistência aos que precisam. Hoje eu posso dizer que me deixei ser levada ao meu limite físico e emocional para iniciar naquele momento um caminho, àquela altura ainda muito nebuloso, que me traria de volta para mim mesma, para que então eu pudesse exercer minha vocação com integridade.

O meu pior sintoma de pânico se manifestava à noite, quando eu tinha a ilusão de que se eu dormisse, poderia morrer. Então passava as noites de olhos arregalados, com medo de morrer. A privação do sono me provocava dores de cabeça insuportáveis, crises de enxaqueca com vômitos e aura, aqueles pontinhos brilhantes que turvam a visão.

De lá das profundezas dessa escuridão eu puxei um fio, que ainda era bem frágil naquele momento, um fio que chamei de força de vontade. Vontade de atravessar esse túnel escuro, de encarar o medo da morte e deixar morrer em mim o que precisava morrer para que o novo pudesse nascer. Consegui uma transferência de volta para São Paulo, minha cidade natal, para assumir uma vaga desafiadora mas que me traria menos exposição, além da possibilidade de estar mais perto da minha família. Foi nesse momento que iniciei uma jornada de autoconhecimento. Fui fazer terapia, tomar florais alquímicos, receber energia Reiki, estudar alguns dos temas que sempre me interessaram.

O processo não foi fácil, mas foi me rendendo oportunidades de reelaborar todas as áreas da minha vida: espiritualidade, profissão, relacionamento afetivo, família e uma nova relação com meu corpo. Até que depois de 12 anos juntos, meu marido e eu nos tornamos três e, Theo, nosso primeiro filho me trouxe presentes dos deuses. Dentre alguns deles, a sabedoria que para cuidar bem do outro é preciso cuidar bem de si. Que onde há tristeza, há o potencial da alegria. Que onde há dor, está faltando um pouco mais de prazer. Que às vezes a raiva é necessária para nos ensinar sobre o amor e que ao olhar para a sombra com coragem podemos descobrir de onde vem a luz. Ensinou-me, especialmente, que toda morte é sucedida por uma nova vida, esse nascimento que o trouxe à vida e que me permitiu renascer.

No trabalho, todos esses novos aprendizados me fizeram crescer por dentro e me renderam uma promoção muito legal. Eu me tornei gerente justamente da área responsável pelos projetos sociais da empresa com a missão de ressignifica-la e de ampliar o seu impacto. Lá estava eu novamente lidando com as dores da humanidade.

Nesse período, em 2014, de 3 nos tornamos 4, e o Bento chegou nos convidando a reelaborar as nossas percepções sobre as bênçãos da vida. Naquele momento, o meu projeto tinha se tornado maior do que eu podia imaginar e a pressão pelos resultados eram muito intensas em relação ao que, só hoje sei, eu seria capaz de suportar. A vontade de fazer acontecer e ir além dos meus limites foi me trazendo prejuízos no sono, no lazer, na capacidade de relaxar. Vivi uma gestação e uma licença maternidade em que eu estava quase sempre apreensiva, ansiosa e cansada. O retorno ao trabalho em 2015 me trouxe uma tristeza profunda e uma sensação de ter nadado, nadado para morrer na praia.

Dentro de mim fui buscar um novo fio fino e frágil quase invisível que hoje eu chamo de humildade. Humildade para reconhecer que não estou no controle das coisas, que é preciso deixar ir até aquilo que me parece mais valioso com a confiança de que tem algo novo para nascer, algo reservado para mim. A humildade para assumir meus limites, minha incapacidade. E para assumir um compromisso primeiramente com a minha verdade antes de abraçar as demandas dos outros.

Nesse movimento interno, eu decidi pedir demissão mesmo sem saber o que eu iria fazer depois, era um passo no vazio, mas era o meu passo. Fazia um bom tempo que eu não me sentia sobre as minhas próprias pernas. E assim, nesse gesto de coragem, pude receber todo o apoio que me chegava: meus pais, minha chefe e os demais colaboradores da empresa e, sobretudo, o Fabio, meu marido, que me concede um apoio incondicional em todos os passos que eu dou nessa vida.

Com o meu desligamento, nossa família estava livre para fazer mudanças e elas chegaram mais rápido do que imaginávamos. Meu marido recebeu uma proposta para trabalhar em Brasília e desde o início de 2016 aqui estamos nós. Encontramos uma casa com jardim, mata nativa e nascente de rio. Passei a estudar tudo o que sempre me encantou em meus processos de autoconhecimento. Fiz cursos, li livros, tomei sol no clube na quarta-feira no meio da manhã. Passei a dançar, cozinhar, benzer… E de 4 nos tornamos 6. Flora e Luca chegaram juntos em 2017 para nos fortalecer no lugar mais belo e luminoso da vida.

Mesmo com toda a demanda que existe em uma casa com 4 filhos pequenos, me sinto animada, confiante e segura. Me sinto perto de mim como nunca estive. Semeei meus sonhos nesse jardim e percebi que quando mais eu cultivo, mais eu tenho para contemplar. No jardim aprendi a respeitar os ciclos, a simplicidade da vida, reforcei o sentimento de confiança nessa força que nos conduz e pude passar a um novo estado de entrega e devoção.

De toda essa história, floresceu o Sagrado Jardim. Um espaço onde hoje ofereço cuidado amoroso na forma de terapias energéticas e que desde 2018 se tornou o meu ofício. Aqui estou eu novamente a cuidar, mas dessa vez sabendo cuidar muito bem de mim! Sinto-me longe de ter concluído esse novo capítulo e acho isso maravilhoso… consigo viver bem no hoje, honrando os passos que me trouxeram até aqui, inclusive os mais difíceis. Em relação ao futuro, tenho me deixado ser guiada, me colocado à serviço da vida, buscando cuidar de tudo o que é vivo da mesma forma que aprendi a cuidar de mim e dos meus amores. Aprendi que posso soltar a mão de qualquer um nessa vida, menos a minha. Cuidar de mim se tornou uma prioridade… e quanto mais eu cuido de mim, mais eu sinto que posso cuidar de quem precisa dos meus cuidados…

Gabriela Callil Rua

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2 Comments
  1. Gabi, querida! q lindo ler sobre sua jornada até aqui e saber q dividimos o mesmo espaço, na mesma empresa por um tempo! te acompanho agora virtualmente. cuidar de si é realmente um baita desafio, q é fácil de ler e ouvir mas de fato muuuuuuuito difícil de incoporar na minha vida. queria estar mais perto pra me beneficiar dos seus aprendizados… bj gde e mta luz na sua caminhada, com sua família linda!

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  2. Olá querida…
    Sempre percebi em você uma essência maior.
    Sua aura linda, aparece desde o olá que nos dava, quando chegávamos no escritório até o até breve, quando saíamos.
    Te admiro, principalmente pela pessoa maravilhosa que és.
    Deus não.poderia ter enviado estas 4 almas para outra família que não fosse a sua.
    Espero que ainda nos encontremos para conversarmos e trocarmos experiências de vida.
    Grande beijo!

    Reply

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