Diário de uma Desempregada

Mulher escrevendo em diário
Imagem de free stock photos from www.picjumbo.com por Pixabay

Maria sempre teve o hábito de escrever e ao ficar desempregada, viu nessa paixão uma maneira de colocar os sentimentos para fora.

Dia 1

Ao chegar em casa com a caixa com os seus pertences, o filho a olhou assustado porém nada disse. Maria o abraçou e chorou como uma criança.

Ele disse que tinha certeza que tudo ficaria bem.

O marido, ao chegar, procurou lhe passar tranquilidade: calma, você é competente e em breve estará recolocada.

Emotiva, chorou novamente.

A noite foi de sono agitado e pouco descanso.

Dia 2

Acordou com dor de cabeça. Tomou um remédio, uma caneca de café e voltou a deitar.

Não dormiu, mas ficou na cama até tarde.

Não ligou a TV. Não pegou um livro. Não faziam parte da sua rotina.

Pegou o celular e entrou no Linkedin. Percebeu que seu perfil estava bem desatualizado.

Imediatamente, começou a modificar algumas coisas e percebeu que o CV também não era dos melhores.

Passeou a tarde acessando os perfis das pessoas e fazendo buscas no Google.

As imagens do dia anterior voltavam a sua cabeça.

Misto de tristeza e raiva.

Dia 3

Entrou em contato com alguns amigos. Contou o que havia acontecido. Manteve a voz firme.

Disse que pretendia descansar por um tempo, mas que se soubessem de algo, gostaria que se lembrassem dela.

Sondou sobre o mercado e as oportunidades, mandou o CV para aqueles que se mostraram receptíveis.

Sua nova rotina: Dormindo cada vez menos. Ansiedade explodindo.

Dia 4

Manteve as buscas na internet ainda sem se expor muito.

Não conseguia descansar, ver TV, ler…

Como estava em casa, acabava sendo acionada para tudo. Era o tal do “já que…”

A tarde, como estava em casa, acabava comendo coisas que antes não comia.

Não tinha ânimo para fazer exercício.

Não queria encontrar as pessoas para não ter que contar. Ainda não se sentia pronta.

A vida era um monte de “NÃOS”.

Dia 5

Na parte da manhã, manteve a rotina na internet.

Entrou em contato com mais pessoas.

Saía para resolver algumas coisas na hora do almoço. Como era rápido, não se arrumava. Saía de moletom e camiseta. No máximo uma jeans.

Um dia, de longe, avistou alguns conhecidos. Morta de vergonha, abaixou a cabeça e atravessou a rua.

Não queria ser vista daquela forma. O que iriam dizer? Provavelmente, achariam que estava deprimida e não era verdade… “Só choro de vez em quando.”

Quando contou para a mãe que havia se escondido por estar com vergonha, a mãe deu logo a solução: “Não seria mais prático sair sempre arrumada e de uma maneira que não precise se envergonha?”

Maria deu de ombros e apenas respondeu que era mais que só a questão da roupa. Não queria ter que dizer o que estava ou não fazendo…

Dia 6

A ausência de mensagens, e-mails e telefonemas a deixavam ansiosa apesar de preferir o isolamento.

Certo dia, ligou para dar feliz aniversário para um ex-colega da empresa.

Estavam todos saindo para almoçar. Sentiu na voz o constrangimento por não terem lhe chamado.

O amigo, sem graça, argumentou que a nova chefe estaria presente e por isso ele achou melhor não lhe chamar, mas que iria ligar para marcarem algo na próxima semana.

Ela manteve a voz firme e disse que entendia. Apesar de ser verdade, doía.

Chorou a tarde toda.

Ela já não fazia mais parte daquele núcleo.

Entendia a posição das pessoas, mas era impossível não sentir, não sofrer.

Dia 7

Discutiu com o marido por não querer ir a uma festa.

“ Não quero ter que contar para as pessoas. Não quero dizer que não estou trabalhando e que na verdade nem estou procurando da forma como deveria. A verdade é que depois de tantos anos no mesmo lugar, estou insegura. Não me sinto preparada. Não sei o que quero fazer. E os encontros são os piores lugares para se estar nessas horas. Parece que todos irão achar que você fez algo errado ou é incompetente. Parece que só existimos em função do que fazemos. É sempre a segunda pergunta a ser feita depois de nos apresentarmos: Prazer Maria. Você trabalha com o que. O que faz? Em que empresa trabalha?”

Dia 8

O marido saiu para correr.

Ficou em casa arrumando a bagunça do final de semana.

Como não foi ao salão de beleza, não fez a unha e nem pintou o cabelo, que já estava em estado crítico.

Lavando a louça, viu seu reflexo na janela da cozinha: cabelos desgrenhados e brancos, olheiras das noites insones, pontos de espinhas dos ataques aos chocolates durante a tarde ou nas madrugadas insones, inchaço na barriga pela falta de exercícios.

A cena a chocou e sem que percebesse deixou um copo cair no chão, deixando-a ainda mais nervosa.

Falou um palavrão bem alto e foi para o banheiro chorando.

O marido que estava voltando, não entendeu nada. Mas as crianças explicaram o ocorrido e disseram que nos últimos dias ela estava sempre nervosa e chorando.

Ele foi atrás e tentou lhe acalmar, mas ela preferiu ficar um pouco sozinha.

Ao final do dia, mais calma, sentaram para conversar.

Ele disse que era importante que ela realmente descansasse uns dias para poder se refazer.

Maria concordou e disse que ficaria uns dias na casa de uma amiga que morava na praia. Assim, seria mais fácil se desligar.

Final do mês 1

Os dias na praia lhe fizeram bem, mas ela não relaxou totalmente. Era difícil aceitar.

O medo, a raiva e a frustração só aumentavam, mas Maria não conseguia falar sobre isso com ninguém.

A amiga sugeriu que ela buscasse ajuda de um profissional, mas ela relutou.

Na volta, retomou sua busca. O mercado parado assustava. Ninguém tinha nada para indicar.

Mandava CV’s e não obtinha retorno.

A aversão social só aumentava porque cada vez mais ela sentia vergonha da sua situação e não queria encontrar com as pessoas.

Com isso, ansiedade e tristeza também aumentavam a passos largos prejudicando sono, alimentação e tudo mais.

Era nítido que precisava de ajuda de um profissional para que o quadro não levasse a uma depressão, mas negava com todas as forças.

Ao avaliar as poucas vagas que apareciam, percebia que o nível de exigência era enorme e que precisava se reciclar com urgência, mas a motivação para dar esse passo tão necessário, não vinha.

As coisas foram se avolumando e as dificuldades passaram a ser intransponíveis para ela. Sentia que não seria capaz de mais nada.

Assim, a sensação de fracasso só aumentava, como a depressão.

Não existia mais autoestima, vontade e força para nada.

Final do mês 5

Recebeu um telefonema de uma empresa interessada em fazer uma entrevista.

A pessoa não quis abrir muito sobre a vaga, mas disse que havia recebido seu CV e que o mesmo parecia adequado.

Assim, gostaria de conversar.

Para sua sorte, foi agendado para o dia seguinte.

Assim, teve tempo de ir ao salão e se colocar de uma forma mais apresentável.

No dia seguinte, fez o melhor que pôde para ficar com uma aparência saudável apesar das olheiras, quilos extras, pele opaca.

Faltava, no entanto, algo que era difícil suprir com maquiagem: viço, energia e confiança.

A recrutadora mostrou-se interessada.

Maria se esforçou, mas as coisas pareciam não fluir.

Embora tivesse bastante experiência e conhecimento, não conseguia se expressar adequadamente.

A voz falhava. A garanta parecia seca. Deixou as mão no colo para que a entrevistadora não percebesse o tremor.

A certo ponto foi interrompida. A mulher sorriu com carinho.

Ela disse que percebia o quanto Maria era qualificada para aquela posição, mas que seu emocional estava lhe sabotando.

Ela completou dizendo: “Se eu deixar você falar com o gestor da área agora, certamente não será escolhida. Mas eu sei que seu problema é emocional e vou te ajudar. Você vai embora. Eu inventarei alguma desculpa e reagendarei esse encontro para amanhã. O que acha?”

Maria explodiu em lágrimas e a agradeceu imensamente.

A gentil recrutadora pediu que Maria lhe contasse sua história e ela desabafou.

Ao final da conversa, Maria escutou atenta aos seus conselhos: “Você deveria ter pedido ajuda e ter procurado um psicólogo para que não tivesse chegado nesse ponto tão baixo de desestabilização. Mas eu já vi casos mais complicados e fico sempre muito triste com isso.”

Maria prometeu que independente do resultado da entrevista no dia seguinte, procuraria ajuda.

Ela tinha finalmente entendido a importância de ir atrás de ajuda profissional.

Sem retomar sua autoconfiança não conseguiria transmitir seus conhecimentos e assim seria difícil ter uma nova chance de recuperar sua vida e dignidade.

No caminho de volta, chorou e rezou. Ela sabia que se fosse uma pessoa menos humana e sensível jamais teria tido outra chance.

No dia seguinte, estava bem mais serena e conseguiu passar seus conhecimentos e experiência.

Ainda assim, não foi escolhida. Mas esse fato não a abalou tanto.

Procurou ajuda de pessoas que abriram os seus horizontes.

Além de recuperar sua saúde e autoestima com a ajuda de uma psicóloga, descobriu que não queria mais trabalhar naquela atividade. Talvez por isso não se empenhasse tanto nas buscas.

Fez um trabalho de coaching e encontrou novos propósitos. Estruturou as ideias e com um planejamento, foi atrás daquilo que queria.

Retomou as antigas atividades, rotinas e aos poucos fui se inserindo novamente nos círculos sociais e de networking.

Foi por meio deles que conheceu sua nova chefe.

Hoje, está novamente empregada, feliz, ativa e produzindo como nunca.

Os medos, a falta de perspectiva e confiança em si própria, ficaram no passado.

No seu tempo livre, Maria ajuda pessoas carentes que estão passando por essa fase. Conversa, ajuda no CV e dá dicas importantes.

Ela sabe o quanto essa trajetória pode ser sofrida para quem decidir fazê-la de forma solitária.

Nessas ocasiões ela sempre deixa para a pessoa um caderninho para que faça anotações importantes e se organize melhor.

“Na primeira página, escrito de próprio punho:

Lembre-se que independente de estar ou não empregada ou na ativa, você é uma pessoa de múltiplos interesses, conhecimentos e capacidade. O que lhe define é o que você é e não o que faz.

Uma situação adversa também não define as competências de ninguém. Tudo pode mudar a qualquer momento para qualquer pessoa e não podemos nos envergonhar por isso.

Não há fraqueza na vulnerabilidade. Pedir ajuda é um ato de coragem e de autoconhecimento.

A vida é muito mais que um CNPJ.

Você pode ser tudo que quiser, mas para isso precisa estar bem consigo e não deixar de aprender novas coisas todos os dias.”

Claudia Taulois

 

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