É mais fácil encontrar um culpado para tudo, que encarar as verdades!

Era simplesmente fácil jogar toda a culpa sobre os problemas da turma A em João. O mais respondão, espevitado, irreverente e atrevido entre todos os alunos. O que fomentava as discussões,  levantava a bandeira dos temas mais polêmicos, etc.

De primeira, talvez todas as pessoas tivessem alguma crítica a ele e ao seu jeito truculento de expor as situações. Aquele que as mães dos amigos não queriam a companhia, que ficava de fora das festas. O patinho feio!

Nem sempre estamos prontos para escutar as verdades ou precisamos que elas sejam de alguma forma, atenuadas. Quando isso não acontece, tendemos à negação ou a buscar culpados.

Tanto para o corpo letivo, como para os demais estudantes, atribuir-lhe a responsabilidade sobre tudo de ruim que acontecia, facilitava tudo. Ainda assim, era também para ele que todos corriam quando não sabiam como resolver suas questões. Ele comprava a briga, defendia, ajudava a quem precisasse.

Se queriam alguma melhoria ou benefício por parte da escola, a ele recorriam para ser o porta-voz, organizar o abaixo assinado e assim por diante. Sempre exposto e assim, visto como o problema a ser combatido.

Quando, no entanto, precisava de aliados, poucos ficavam ao seu lado. Nem por isso, deixou de ser quem era. Sua personalidade marcante foi pouco a pouco, ganhando admiradores. No início, de maneira tímida e velada, afinal pegava mal ser seu aliado, mas com o passar dos anos, ganhou mais defensores.

Os que chegavam logo entenderam que ele nunca teria a fala mansa, mas defenderia suas crenças e verdades, sendo justo e fiel. Compreenderam ser melhor ter amigos que nos digam a verdade, que inimigos que nos sorriam e nos abandonem quando mais precisamos, ou pior: nos apunhalem pelas costas.

Para aqueles que não queriam mudanças, continuou sendo o problemático a quem era gostoso criticar, embora usufruíssem sem constrangimento das conquistas por ele alcançadas.

João é o “patinho feio” que conhecemos bem. Toda família ou turma, tem um.
O moleque mal-educado do prédio que compra a briga de todos quando a bola cai no condomínio vizinho e o zelador não quer devolver. A quem jogam a culpa — sem nem antes checar os fatos — ao encontrar o vidro quebrado, a parede pichada, o sofá rasgado… mas também aquele que organiza a vaquinha para ajudar a comprar uma nova chuteira para o amigo que quer participar do campeonato e não tem dinheiro para o material.

Em algum momento da vida, possivelmente todos tenhamos sido testemunhas ou parte de enredos como esse. Qual era o seu papel? O herói bandido, o coadjuvante acusador, o coadjuvante aproveitador ou o apoiador?

Alguns talvez, nem consigam se ver em lugar nenhum. Navegam inertes, estando ora num lugar, ora nutro, mas nunca em posição de protagonismo. Dançam conforme a maré e se posicionam da forma que lhes for mais favorável e fácil: “de que lado é melhor ficar agora?”

Para que perder tempo tentando entender quem está “certo ou errado” se temos o João para culpar, ou para que se indispor com fulano ou beltrano, se esse mesmo João pode dar a cara a tapa e resolver a questão?

“Não, mas não faço isso por mal. Simplesmente sou uma pessoa que não gosta de confusão, portanto nem vamos tocar no assunto para não dar briga, afinal os defensores do João são como ele e discutem por tudo!”

Geralmente esse comportamento sobrevive à infância. Já adultos, nas empresas, esses “seres imparciais” fingem também não ver as injustiças, os erros e abusos cometidos, mas são rápidos em apontar o dedo para agradar ao chefe ou defender o status quo, afinal não podem arriscar e perder seus empregos.

Por muito tempo o mundo teve poucos “Joãos” e muitos coadjuvantes de todas as espécies a sustentar os “zeladores” que não querem devolver a bola.

Parece, no entanto, que o time do João tem se fortalecido.
Pessoas que nunca tiveram chuteira, uniforme ou acesso a campeonatos, perceberam que a luta de João era digna e inclusiva e passaram a se juntar a ele. Entenderam ser preferível uma fala dura e verdadeira a uma falsa, equivocada, separatista e autoritária. No time do João, todo mundo pode jogar. Ao contrário do que pregaram por muito tempo, ele não escolhe apenas os “bons, bonitos e estilosos” que eram antes os únicos convocados. Ele abraça quem chegar e sobretudo, aquele que estiver precisando.

Enquanto alguns querem apenas subir o preço do ingresso para que só a turma cativa e da “panelinha” possa participar da festa, ele briga para abaixar o mesmo e ter assim, mais pessoas, de todos os tipos, gostos e classes, no campeonato!

As empresas não podem mais fingir, é preciso ser aquilo que propagam e comportamento inadequado, demite! Para os coadjuvantes, defender o chefe abusivo fica cada vez mais difícil.

Chegar aqui não foi fácil e nem seria possível se João fosse diferente. Precisou sim se indispor, comprar brigas e inimigos, mas hoje sua turma é enorme e não está disposta a abdicar do maior campeonato de todos. Veio para jogar respeitando as regras, o juiz e os milhões de torcedores que conquistou, mas não entregará o jogo. Jogará de igual para igual e é bom que o VAR não atrapalhe!

Claudia Taulois – Publicitária, Escritora e Founder da engaging.com.br