“Não há glamour em se trabalhar com a dor”. Na dor, não há rostos alegres, sorrisos fartos nem bocas que cantam. Na dor, apenas encontramos olhos que pedem auxílio, mãos que pedem socorro, corpos que sofrem e lutam pelo viver. Por isso estou aqui. A dor do próximo me incomoda. O sofrimento alheio me entristece. Compreendo bem aquele que sofre. Seu grito silencioso. Sua mensagem de socorro. Lágrimas que buscam alívio.

Não há prazer na dor, mas pode-se encontrar refrigério no caminho. Descanso em momentos de paz. Basta apenas uma mão estendida. Um oásis no deserto. Um bote salva-vidas. Uma boia lançada ao mar das tormentas. Há um caminho a percorrer. Há uma saída. Uma luz no fim do túnel. Há uma nova chance para recomeçar. Uma nova história para escrever. Coisas novas para descobrir. Um futuro para se lançar.

ACREDITE! EU VENCI A DOR, O SOFRIMENTO, A TORMENTA DO MAR das emoções. Se eu consegui, você também pode! by Giancarla Costa

Divórcio. Traição. Término de namoro. Traumas. Abandono. Humilhação. Rejeição. Morte. Perdas. Ruptura de laços afetivos. Perda do objeto de amor. Toda perda causa dor. Faz o coração sangrar. A alma penar. Viver na dor é viver na exaustão. É sufocar um grito desesperador. É dilacerar a alma.

Para aquele que sofre, a dor é a última fronteira entre a sanidade e a loucura, é o limite entre o corpo e a psique, entre o eu e o outro. A dor é um fenômeno de limite, um grito de desespero que jorra das profundezas do ser. A dor não existe para matar, pelo contrário, existe como um grito de socorro, um apelo à vida que anseia desesperadamente por alívio e refrigério. Aquele que atenta contra a própria vida, anseia desesperadamente aplacar uma dor que não se conhece a origem, pois esta dor é expressa no corpo, mas não é de ordem biológica.

Para a Psicanálise não existe diferença entre dor física e psíquica, a questão da dor tem sempre um cunho existencial.  A dor psíquica, também entendida como a dor de amar ou dor emocional é de difícil definição, pois escapa a razão. Uma dor solta, sem ligação, sem conexão com algo, mas que foi vivido e que não conseguimos expressar, nem dar voz.

O psicanalista francês Juan David Nasio, explica que” A dor só existe sobre um fundo de amor. A  dor é um afeto, o derradeiro afeto, a última muralha antes da loucura e da morte. Ela é como um estremecimento final que comprova a vida e o nosso poder de nos recuperarmos. Não se morre de dor. Enquanto há dor, também temos as forças disponíveis para combatê-la e continuar a viver.”

A dor psíquica ou emocional pode ser considerada um afeto (sentimento) que resulta da quebra brutal de um laço afetivo que liga a pessoa amada ou objeto amado. Essa quebra violenta e repentina, gera um sofrimento interior, que passa a ser vivido dilaceradamente pela alma.  A dor emocional se relaciona diretamente com a dor gerada pela perda.  A perda é um fenômeno pelo qual todo ser humano irá passar.

FAÇA DA SUA DOR COMBUSTÍVEL PARA  ALÇAR NOVOS VOOS, AMPLIAR OS HORIZONTES, ESCREVER UMA NOVA HISTÓRIA. É NECESSÁRIO RENASCER DAS CINZAS E RECOMEÇAR.

Muitos têm medo da dor, dos processos de destruição, sejam materiais ou emocionais. As perdas sinalizam a necessidade de se reconstruir sob novas bases. Não voltar para velhos caminhos. Olhar para o que foi perdido e aprender com os erros. Aceitar a perda e se abrir para o novo.

O mito da Phoenix ilustra perfeitamente que o ser humano possui em seu cerne a capacidade de superação e de transformação da própria dor e em seu âmago encontra a fonte de toda a força interior.  As perdas, a morte, a adversidade faz parte do ciclo da vida. Para renascer é necessário morrer. Para germinar é necessário sepultar a semente.

O Mito da Phoenix é uma crença que existia em vários povos da antiguidade, dentre eles, gregos, egípcios e chineses. A História da Phoenix é conhecida no mundo ocidental através dos escritores romanos Tácito, Ovídio e Plínio, o Velho. Uma ave semelhante a uma águia, de penas brilhantes, douradas e vermelhas arroxeadas. Conhecida por sua capacidade de renascer das cinzas, a Phoenix ao sentir a proximidade de sua morte, preparava uma fogueira funerária com ervas aromáticas e se auto incendiava. Renascida das próprias cinzas, a nova ave poderia viver mais mil anos, segundo a mitologia. O renascer das cinzas é uma habilidade que precisa ser desenvolvida a cada instante da própria vida.

Ao olhar para o Mito da Phoenix, a ave mitológica pode ser representada pelo ser humano e seus ciclos. As perdas simbolizam justamente o fim, aquilo que precisa ser encerrado, finalizado para que o ciclo da dor também chegue ao fim.  Ao morrer, a Phoenix encerra um ciclo vital. Ao renascer das cinzas abre-se para o novo. Uma nova realidade, um novo tempo, a necessidade de reconstruir um novo ser.  Aceitar o fluxo natural da vida não significa que não existirão dificuldades, angústias, adversidades, dor, sofrimento e morte. Aceitar o fluxo da vida significa estar mais bem preparado para enfrentar e superar os desafios.

A morte da Phoenix pode simbolizar o encerramento de um ciclo na vida do ser humano. Essa morte não precisa ser necessariamente a morte de alguém, mas o fim de um relacionamento, a perda de um emprego, o fechamento de um negócio, um divórcio, insatisfação com a vida e com a profissão. É necessário deixar morrer. Encerrar os ciclos de dor e sofrimento. Desapegar. Deixar ir embora.

Todo processo que leva a destruição interior, causa dor, angústia e muito sofrimento, mas há esperança. Há uma saída. Ao ressurgir das cinzas, ao renascer das próprias dores, a Phoenix mostra que o ser humano pode sim, se reconstruir. Se transformar. Se reinventar. Recomeçar. Buscar novos caminhos.

Não tenha medo da DOR. Não tenha medo do sofrimento.  Atente-se à mensagem que seu sofrimento quer passar. Atente-se aquilo que a dor quer falar. Ouça a voz da sua alma. Atente-se ao clamor do seu corpo. Sinta a sua dor! Não tenha medo. Deixe a dor falar!  Ela só irá embora assim que falar o que precisa ser falado, assim que falar o que tem sido sufocado há muito tempo. Ouça! Não tenha medo. Escute a voz da dor e o alívio virá!  A psicanálise pode ajudar nesse processo de transformação e reconstrução de si mesmo. A partir de um processo terapêutico psicanalítico, o autoconhecimento proporcionado pela análise, gerará reflexão ao indivíduo possibilitando a transformação e reconstrução do ser sob estruturas mais sadias e fortes.

Fonte: Nasio, J.-D. O livro da dor e do amor / J.-D. Nasio; tradução, Lucy Magalhães. — Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.

Giancarla Costa – Psicanalista, Especialista e Colunista da Engaging.