Caminhar pela estrada da vida é tarefa das mais árduas para alguns e sedutora para outros. Em um instante, nasce e num sopro, morre. Morrer e renascer. Evoluir e transformar. Não há como fugir. Na vida ou se vive ou se morre. Viver nessa selva de pedra chamada mundo, não é fácil. Crises econômicas, catástrofes da natureza, desemprego, divórcio, morte, lutas internas, adversidades. Viver não é fácil. A realidade é bastante dura, nua e crua.

Ser protagonista da própria vida exige posicionar-se. Ser seu próprio projeto. Lançar-se ao futuro. Buscar realizar-se. Sair da mediocridade. Ser sua melhor versão. Assumir o controle da própria vida. Não há desculpas. Não há Deus ou alguém para culpar por seus próprios fracassos. Segundo o existencialista Jean Paul Sartre, o ser humano é responsável por tudo o que é. É um projeto. Primeiro existe, depois se define por suas próprias ações e lança-se ao futuro criando possibilidades de realizar-se. O que se faz da própria vida, que significado atribui a própria existência faz parte da liberdade incondicional na qual não se pode se abster.  O ser humano é responsável por tudo aquilo que se tornou.

Para tornar-se a mulher que sempre desejou ser, é necessário assumir a responsabilidade pelas próprias escolhas, ser a atriz principal da história da própria vida. O outro não é responsável por você, mas você e unicamente você. Se passas a responsabilidade da tua vida a outro, sempre viverás à margem de si mesma, pois as escolhas, que você mesma poderia fazer, serão feitas por alguém que talvez não te conheça o suficiente. Percorrerás o caminho da mediocridade e viverás sempre insatisfeita, numa vida sem sentido, sem propósito.

O TORNAR-SE implica em SER. Uma mudança de vida nunca será efetiva, se não houver uma transformação interior. Se olhar no espelho e ver que não é a mulher que sempre sonhou, muitas vezes causa angústia e dor. O tornar-se a mulher que sempre desejou ser implica em percorrer um caminho de transformação, um caminho de conhecimento que proporcione uma mudança verdadeira, um resgate do próprio ser. Não é uma tarefa fácil, envolve compromisso e responsabilidade. Ninguém pode mudar aquilo que não conhece, por isso, é necessário conhecer a si mesma.

Desde o nascimento, o ser humano vai experimentando o mundo a sua volta e vai se tornando igual a ele. O que isso significa? Que muito daquilo que somos como pessoa foi construído na infância de forma inconsciente e involuntária a partir do que observamos e assimilamos. Vou explicar melhor!

Entramos no planeta Terra, a partir do ventre de uma mulher. Somos gerados como filhos, cuja responsabilidade é dada a um pai e a uma mãe. Essa responsabilidade implica em dizer, que os pais devem cuidar, amar, prover e proteger vossos filhos, seja no âmbito da saúde física, mental e emocional. Mas o que acontece quando algumas responsabilidades são negligenciadas? O que a criança percebe a partir do que viveu ou tem vivido, se TORNARÁ parte dela mesma, ou seja, constituirá a personalidade dela, o mundo será visto e interpretado com os olhos da criança, mesmo que de forma inconsciente.

Violência doméstica, abandono, negligência, abusos psicológicos e/ou sexuais, todas as experiências vividas na infância, estão gravadas no nosso SER, seja na forma de complexos, medos, rejeição, agressividade, ansiedade, inadequação, insuficiência, anulação, busca por aceitação, busca por validação, falta de amor.

A infância é um solo que se percorre a vida toda. Por isso, se faz necessário olhar para si, conhecer as próprias dores, o que lhe aflige, quais são seus medos, o que te paralisa, quais são os seus limites. A maneira como nossa criança interior percebeu as situações é refletida hoje em nossos comportamentos. A forma como nos sentimos hoje é apenas a pontinha de um iceberg. É necessário mergulhar profundamente em si mesma para conhecer a forma como nossa criança interior percebeu e interpretou o mundo.

Para viver uma mudança de vida é necessário viver uma transformação interior. A sua vida hoje é reflexo de quem você é. Os seus pensamentos, as suas crenças, seus comportamentos levaram você até onde você está. O primeiro passo para construir quem verdadeiramente desejas ser  é olhar para si mesma.

O Autoconhecimento é um processo de tornar-se, de conhecer-se, de descobrir-se, de explorar e navegar nas águas das emoções. De aceitá-las, elaborá-las e ressignificá-las. Para Jung, o ser humano sempre está em busca de autorrealização ou em busca de si mesmo. O autoconhecimento permite o reconhecimento dos bloqueios que dificultam o desenvolvimento do potencial humano, impedindo o processo de individuação, a busca por si mesmo. É necessário, segundo Jung, trazer para a consciência, os medos, as dores, os conflitos e as negações a fim de aceitá-los, respeitá-los e elaborá-los, trazendo luz à própria escuridão.

A tomada de consciência é um despertar. Olhar para dentro de si e buscar tornar consciente aquilo que não temos consciência. Dar o primeiro passo para uma mudança interior verdadeiramente efetiva. O ser humano é capaz de buscar a própria cura, de se desprender do que fere, do que machuca. É capaz de realizar, sonhar, viver o que tanto almeja. Não tenha medo de mergulhar em si mesma e conhecer as próprias dores. Será libertador, disso eu tenho certeza.

O grande físico, Albert Einstein, falou que “nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou”. Para viver uma mudança de vida é necessário desenvolver um novo estado de consciência. Ninguém pode mudar aquilo que não conhece e se você não se conhece, como a sua vida poderá mudar? Continuará andando em círculos, num ciclo vicioso e amedrontador.

Autoconhecimento e Autoconsciência são duas habilidades distintas, não sinônimas, mas que estão ligadas.  Autoconsciência é ter o conhecimento do próprio pensamento. É uma percepção clara da própria personalidade. Uma compreensão da própria existência. É pensar, é perceber a si mesmo como um ser pensante. Para conhecer a própria consciência é necessário ter autoconhecimento. A falta de uma prejudica o desenvolvimento da outra.

Um processo terapêutico psicanalítico possibilita autoconhecimento e consequentemente desperta a consciência de si mesmo. O ser humano passa a perceber com mais consciência seus pensamentos e sentimentos, dores e emoções. Para escrever uma nova história, percorrer novos caminhos é necessário desenvolver a autoconsciência. A análise pode te ajudar nesse caminho.

Não há mudança na fuga, na resistência e/ou na negação. O mundo externo só mudará quando o mundo interno for transformado. A realidade só será modificada quando de fato for visualizada tal como ela é. O presente é agora.  O adoecimento mental será inevitável quando houver resistências, fugas e negação das situações da vida. Negar a partida de um amor, não aceitar o divórcio, o fim de um relacionamento, a perda do emprego, o fechamento de um negócio o manterá aprisionado no passado, na dor, no apego, causando sofrimento psíquico e emocional.  A aceitação é o caminho para a liberdade. Ser livre da dor, do sofrimento, da mediocridade, do fracasso e das perdas.

ACEITE-SE. Aceite suas falhas, suas imperfeições, seus erros, más escolhas, suas fragilidades, suas dores, seus conflitos, suas angústias. Seja honesta consigo mesma, olhe para si sem censura, sem julgamentos. Ao aceitar-se começarás a percorrer um caminho de liberdade.

Giancarla Costa
Psicanalista, Especialista e Colunista da Engaging