Você costuma ter ressaca moral?

Estamos o tempo todo transmitindo algo sobre nós mesmos através do  nosso comportamento, personalidade, atitudes, etc. A isso damos o nome de imagem e essa percepção que o outro tem de nós é responsável por moldar nossas relações, oportunidades e futuro.

Somos os únicos responsáveis por aquilo que projetamos e devemos prezar por isso.

Para ser percebido da forma que gostaria é preciso autenticidade. Ninguém sustenta uma imagem que não é real, por muito tempo.

Você tem ideia que como está sendo percebido? Como cuida de seus relacionamentos?

Vamos a um exemplo banal, mas que pode dizer muito sobre nossas motivações e personalidade.

Você é uma pessoa que costuma mandar, independente de crenças e religião, mensagens edificantes em datas comemorativas como Natal, Páscoa, aniversário, etc.? Em tese, é uma pessoa sociável e bacana?

Acredito que a maioria de nós o faça com certa regularidade, afinal é um ato social bem comum, não é mesmo?

Pois, bem! Queria então ter uma ideia de grandeza. Você manda para toda a sua base de contatos ou apenas para os mais próximos?

Alguma vez já sentiu uma certa ressaca depois desse ritual? Não estou me referindo ao quanto você comeu e bebeu nessas ocasiões. Meu desejo é entender se suas palavras realmente foram sinceras e se você faria tudo que escreveu e desejou, caso fosse necessário. Ou será que poderia ser pego na falsidade, ocasionando uma ressaca moral?

O fato é que as redes sociais nos possibilitaram estar em contato e saber da vida de centenas ou até milhares de pessoas que de outra forma, seria impossível. Obviamente não podemos ter com todas, proximidade e convivência, mas de certa forma temos uma ideia da vida que têm.

Pelo Instagram podemos saber se possuem família, se têm uma boa vida social com amigos, lazer, etc.

No Linkedin, avaliamos o lado profissional. Venceram ou não? Qual o cargo e em que empresa? E a rede de contatos, é interessante? Xi… fulano perdeu o emprego…

Já no Twitter entendemos o posicionamento político, as ideias mais profundas e decidimos se queremos ou não continuar essa relação, afinal, para  muitos, hoje é essa a régua que nos define.

Feita essa triagem temos lá nossa rede de contatos. E as datas festivas acabam sendo o momento de interagir e mostrar como somos fofinhos.

Contudo, a vida acontece mesmo de segunda a sexta e às vezes não somos essa pessoa tão amável e sensível que aparece para o outro algumas vezes ao ano… e no nosso exemplo, um dos amigos que recebera a mensagem acreditando nisso, resolve lhe procurar no dia seguinte.

Primeiro pergunta se passou a data bem, se a família está com saúde, etc. Na sequência, comenta que está passando por uma situação difícil. Você gela do outro lado, se arrependendo de ter enviado a mensagem. Pensa em ficar “offline” e realmente fica, afinal está trabalhando. Mas as mensagens continuam chegando sem que você pegue no celular.

Passado um tempinho, você resolve olhar. Vê que ele está em busca de uma nova oportunidade e menciona que você conhece uma pessoa importante para os objetivos dele. Pergunta se você poderia lhe indicar. Você se irrita, afinal as pessoas abusam! Não é certo te colocar naquela situação só porque você passa quase todos os finais de semana na casa de campo dele. Decide que não vai se expor, afinal se ele perdeu o emprego é porque fez algo de errado ou é incompetente… só pode…

Furioso, decide que não vai nem responder e o bloqueia. Nesse momento, a  secretária lhe chama para a reunião de Diversidade, da qual você é um dos principais idealizadores.  Você sabe como a  questão ESG está em evidência e você quer fazer parte desse movimento.

Andando pelo corredor, é cobrado por um colega por não ter respondido a alguns emails dele e menciona que o projeto está parado em função disso. Você diz que ainda não teve tempo de analisar e continua caminhando sem dar importância.

No trajeto para casa, se irrita várias vezes no trânsito. Acaba passando em alguns sinais vermelho, afinal está com pressa. Opta por pagar a multa, afinal tem condições financeiras.

A noite, comenta sobre seu dia com a mulher e os filhos enquanto assina um cheque para a causa social que a esposa encabeça. Orgulha-se de suas boas ações e acredita que com isso, está fazendo sua parte em benefício da sociedade.

Antes de dormir, já deitado, mostra para a esposa as fotos que o vizinho postou e desdenha de tudo: “só porque ele comprou esse novo barco, pensa ser melhor que todo mundo. É um cafona e a mulher dele, uma interesseira e desclassificada. Só não vê quem não quer.”

Essa não é uma história real, mas sabemos que existem muitas pessoas assim.

São incapazes de ficar felizes pelas conquistas alheias, de estender a mão a um conhecido,  de cumprir com as regras corporativas e da sociedade, mas acreditam que ao ajudar alguma causa “x” ou “Y”, se tonem exemplos a serem seguidos.

Talvez não tenham nem a tal da ressaca moral mencionada no início desse texto. Possivelmente, durmam com a certeza de estarem cumprindo o seu papel, mas a verdade é que estão apenas “comungando sem confessar”. O ego não lhes permite enxergar que são, na verdade,  uma fraude.

Para aqueles que desejam realmente deixar um legado e ser um ser humano melhor, é preciso buscar a verdade que lhe habita e para isso é necessário, antes de tudo, se conhecer e às suas motivações.

O que te dá paz para dormir? O que te motiva a levantar?

Quem está feliz consigo tem mais disposição e empenho para ajudar o outro?

Será que somos as pessoas que pensamos ser? Nós nos enxergamos com os defeitos que temos e queremos realmente melhorar?

Temos ciumes de nossos amigos ou realmente queremos para eles, o mesmo que desejamos para nós? Ao ver um post maravilhoso sobre a última viagem, a promoção, o pedido de casamento, o novo carro e tantas outras coisas, nos sentimos genuinamente felizes ou uma ponta de tristeza e ciumes nos invade? Ao final, curtimos e felicitamos  pelo momento ou  fingimos que nem vimos?

“Você sabe o motivo de pessoas estranhas te apoiarem mais do que seus conhecidosPorque as pessoas que você conhece levam um certo tempo para aceitar o fato de vocês terem saído do mesmo lugar, mas elas ainda continuarem lá.”

A verdade é que somos bastante egoístas, e muitas vezes optamos por caminhos mais curtos para vender uma imagem que não corresponde à realidade.

O ponto é: ao se reconhecer nesse lugar desejamos mudar ou simplesmente optamos por permanecer onde estamos?

Só cabe a cada um de nós decidir se quer viver com uma eterna ressaca moral, ou sendo a pessoa que dizemos ser.

Invista em você e na sua transformação! Ela começa pelo seu autoconhecimento.

 

Claudia Taulois