Sinceramente, não quero que tudo volte ao “normal”. 

Assisto à uma veiculação de uma das maiores instituições financeiras brasileiras, nela são expostas alternativas dos gestores para contribuir com o quadro atual e, ao final, informa que é uma ajuda até que tudo volte ao normal, e frisa, porque tudo vai voltar ao normal. Será?

Normal para quem, “cara pálida”?

O mundo já não será o mesmo, seria muita ingenuidade crer nisso,  não há como,  e – sinceramente – espero que não, espero que o “tudo” não “volte” para aquele “normal”, profundamente injusto e desigual, espero que tudo melhore, que seja construído um novo “normal”, mais justo, menos egocentrado e vaidoso, livre de muitas das pseudo solidariedades oportunistas e marqueteiras.

Com oportunidades reais e equânimes, que considerando com honestidade a enorme dívida social que temos, que perpetua injustiças nos diversos segmentos. Espero que sejam construídas soluções efetivas e transformadoras, que passado o pico da crise, não seja  “osso” jogado,  um cala a boca momentaneamente. Um gap que permite falta de saneamento básico, controle pela milícia e tráfego em comunidades, entre muitas outras violências geradas pelas distorções da nosso real “normal”.

Espero que  nossos impostos paguem educação, saúde, segurança e de qualidade, –   é o mínimo, não um luxo –,  no lugar de pagar privilégios, que com o rótulo de prerrogativas, pagam salários e staffs injustificáveis, para muitos serviços não entregues em um país como o nosso, que precisa de muito.

Espero que a economia criativa seja impulsionada de forma real, mais uma vez,  não oportunista, de forma que em uma crise, os recursos de apoio e incentivo não sejam canalizados para os mesmos detentores de privilégios.

Espero mesmo que na área da cultura, que gera empregos, renda e paga impostos,  o valor de iniciativas seja considerado por suas reais qualidades no lugar de ser aproveitado como fonte de divulgação barata, utilizada por muitas empresas, por incentivos, analisadas por pessoas com escassos interesses e conhecimento em cultura, e que destinam recursos para os mesmos que concentram grandes recursos com atividades muitas vezes de pouco conteúdo e muito paetê.

Espero que em um mundo, que vem se tornando cada vez mais reacionário, as pessoas considerem o outro, de verdade e de todas as formas, com respeito por suas ideias, solidariedade por suas questões, sejam elas quais forem, guerra, fome, corrupção, política, e busquem uma colaboração consistente, sem paternalismos e mais uma vez, oportunismos.

Espero que as pessoas tenham relações menos “tóxicas”, procurem ajuda, tenham ajuda e se tratem de forma a não jogar suas questões, frustrações e “lixo” nos outros.

Espero que as empresas busquem realmente solucionar problemas, que o dinheiro não trabalhe para o dinheiro, mas para as pessoas; que os valores estejam linkados a uma construção social sólida e não há uma fortuna pessoal robusta, que despreza valores fundamentais como preservação ambiental.

Espero que influencers, escutem, estudem, aprendam, se estruturem de forma a não produzir uma persona vazia, superficial  e inconsistente servindo ao outro de verdade com legitimidade, acredito que o mundo precisa de menos gurus e mais consistência.

Espero que tenhamos consciência real, lato senso, de forma que respeitemos e valorizemos o outro e não estejamos apenas em “um lugar de respeito e valorização”, o que é muito pouco, da mesma forma que, espero mesmo, que quando alguém fizer uso de expressões como impactar, incluir, resiliência, engajamento, pró-atividade, disruptivo, agregar valor, sororidade, apropriação, empoderamento, superação, pensar fora da caixa, entre muitos outros, em uma proposta, projeto, estudo, plano, não esteja fazendo uso da linguagem de forma vazia e superficial, muito propalada para produzir efeito e adesão sem qualquer consistência, mas esteja de fato comunicando e buscando promover mudanças que transformem a sociedade.

Independente do tamanho, cada um em seu segmento, todas as iniciativas possuem valor.

Sim, eu espero muito, porque sei que além de superar o momento, podemos fazer mais e melhor, juntos!

 

Andrea de Camargo Noronha – Psicologia clínica, Atendimento de crises, Atendimento de transições existenciais e mudanças que impactam em sua vida pessoal e profissional.

 

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