Sou única filha mulher, a do meio, com dois irmãos mais velhos e dois mais novos.

Nascida em um família de classe média, rica em ideais, exemplos e princípios.

Fui desde sempre vigiada e protegida, dos “perigos” dessa vida, sempre sob a escolta e olhares atentos dos meus irmãos.

Namorar, ir ao cinema, bailinhos aos sábados não eram permitidos para mim.

Nesse período, tendo a cumplicidade da minha mãe, apaixone-me e vivi as delícias de um amor adolescente.

Nunca, no entanto, namorei sem ter ao lado algum irmão a me vigiar.

Apesar de não ser algo natural para as mulheres da época, entrei na faculdade de Direito.

Segui em frente, conheci a pessoa que viria a ser meu marido. Infelizmente, interrompi os estudos no terceiro ano da faculdade para me casar.

Com o tempo me arrependi muito de ter desistido.

Gostaria que alguém tivesse me aconselhado a ir a diante, me dizendo a importância disso e que uma coisa não impedia a outra.

Mas não foi assim que aconteceu. Os tempos eram outros, a cabeça das pessoas era diferente.

Da mulher se esperava que fosse uma boa dona de casa, esposa e mãe dedicada.

E eu fui tudo isso. Tivemos 3 filhas.

Lutamos juntos em muitos momentos de crise financeira.

Para ajudar nas despesas, comecei a vender “tupperware” para amigas e amigas de amigas.

Como toda relação, tivemos bons e maus momentos.

As crises foram se avolumando e após 18 anos de casados, a separação foi inevitável.

Para meus pais, foi um choque terrível. Na época, casamento desfeito ainda era um tabu.

Não era fácil para as mulheres. As dificuldades para recomeçar eram imensas tanto na vida afetiva, quanto na vida profissional.

Apesar do medo e da responsabilidade de seguir sozinha com três adolescentes, enfrentei os obstáculos.

Pedi ajuda ao meu pai, que apesar de estar sofrendo absurdamente com minha separação, nunca me abandonou. Pelo contrário, ele e minha mãe foram maravilhosos e nada disso teria sido possível sem o apoio, o amor e a presença deles em minha vida.

Arranjei um emprego e conquistei o meu espaço, a minha individualidade e o direito de ser feliz tendo ao eu lado o meu maior tesouro: minhas filhas.

Era a primeira vez na verdade que tinha o controle de minha vida, que não estava sob a tutela de ninguém.

Havia passado dos cuidados de meu pai e irmãos para os de meu marido sem ter nunca tido voz ativa para nada.

Apenas segui no que entendia ser o fluxo natural da vida sem questionamentos. Nunca me rebelei ou me indispus com nada e ninguém.

Sendo assim, o passo que dava era gigantesco para mim.

O medo, no entanto, não foi maior que a determinação. Segui em frente.

No início me consumia de culpa porque queria dar o melhor para minhas filhas e nem sempre era possível.

Não foi fácil.

Trabalhei, dei o melhor de mim e hoje tenho orgulho de ter repassado os mesmos princípios e valores que meus pais me ensinaram com a diferença que incentivei que elas fossem mulheres independentes, que estudassem, tivessem uma profissão.

Hoje, graças a Deus os tempos são outros. Minhas filhas estudaram e são mulheres batalhadoras.

Na geração seguinte a delas, vejo que as amigas dos meus netos aproveitam a vida, estudam e trabalham.

Percebo que querem casar e ter uma família, mas não antes de ter consolidado a carreira e ter aproveitado bastante.

Homens e mulheres têm os mesmos direitos, embora eu ache que às vezes as meninas se depreciem um pouco nessa busca por igualdade.

Deixam de experimentar sensações deliciosas como serem paqueradas, cortejadas, receber flores, bilhetinhos apaixonados.

Será que o coração delas acelera ao trocar um primeiro olhar com alguém que despertou seu interesse? E o frio na barriga do primeiro encontro, o primeiro beijo?

Antes era mais difícil viver isso tudo. Eu mesma, tinha que driblar 4 irmãos. Mas quando acontecia era maravilhoso!

Enfim, cada geração tem as suas dores e alegrias.

Bom poder assistir a isso sabendo que entre erros e acertos, sempre busquei o melhor e me sinto feliz e realizada.

Tenho 72 anos, uma família linda e de quebra ainda tenho três netos que são a minha vida.

 

Celina Lassandro Rua