Um mundo cada vez mais digital piora os conflitos entre as gerações?  É possível optar por um grupo em detrimento do outro ao se traçar a estratégia de uma empresa? Em um de seus melhores textos, Fernando Blanco, Executivo C-level, Professor, Coach, Mentor e Consultor, discorre sabiamente por um dos temas mais atuais e relevantes do momento.

 

Mulheres de diferentes gerações, trabalhando juntas

Imagem: Canva

 

Os meus 35 anos de carreira são suficientemente longos para ter testemunhado alguns conflitos geracionais, mas nunca vi nada minimamente similar ao que vivemos nestes tempos crescentemente digitais.

Parece haver um abismo intransponível entre pessoas de 25-35 anos e os de 50-60. A visão de mundo é, obviamente, diferente – como sempre foi –, mas hoje percebo uma inconveniente dose de preconceito recíproco.

Acontece que algumas coisas nunca mudam. Vamos a elas.

Jovens sempre foram e continuam sendo naturalmente mais arrojados (com algum grau de afobação), propensos a correr riscos e simpáticos à tecnologia, na extensão que ela pode substituir todo o resto.

Tudo se encaixa no business plan, o algoritmo sozinho gerencia o negócio e a ultra conexão resolve os desafios comerciais. Para o jovem, o sucesso é inevitável.

Coroas são naturalmente mais lentos para absorver novidades (com algum grau de ceticismo), costumam ser conservadores na tomada de decisão, e raramente confiam cegamente na mais disruptiva das tecnologias.

Já aprenderam que o Word, o Power Point e o Excel aceitam tudo, sem falar que já viveram crises globais, nacionais, empresariais e pessoais demais, para acreditar que existe negócio sem risco.

Acontece que a sociedade acelerou demais e todos os gaps comportamentais, que sempre existiram, também se amplificaram.

Na medida que todos esperam respostas rápidas para tudo, a tolerância vem desaparecendo em velocidade proporcional.

Coroas não entendem o porquê de tanta pressa dos jovens e estes não aceitam a lentidão dos processos impostos por coroas.

O resultado é que, neste mundo novo, as pessoas (de todas as gerações) estão sofrendo e, por tabela, as organizações também estão sofrendo.

O turnover de pessoal parece estar tão elevado quanto a incidência de patologias psiquiátricas em todos os níveis hierárquicos.

E isso tem tudo a ver com a sua carreira ou com a sua empresa!

E os sábios nesta história?

Primeiro uma explicação sobre a sapiência para estes tempos acelerados nas organizacionais:

  • Primeiramente, sábio não é mais aquela figura de cartoon, do velhote com olhar plácido, que parece ter resposta para todos os dilemas do universo.
  • O “neo-sábio” pode ter 25, 45 ou 65 anos de idade. Não é mais o RG de numeração reduzida que afiança a capacidade de liderar.
  • Assim como não é a capacidade produzir um App por dia que avaliza a competência de transformar organizacionais em máquinas de sucesso.

Surpresos? Pois é, estou convencido de que nem os tradicionais perfis de jovens e coroas têm as competências para bem conduzir empresas e carreiras.

Há apenas 15 anos, somente alguém com cabelos grisalhos (ou ausência de cabelos) era visto como capaz de liderar. Por outro lado, atualmente tem muita gente acreditando que espinhas na cara são o único sinal visível de futuro empreendedor bilionário.

Este movimento pendular radical é uma receita para o fracasso.

O sábio dos tempos modernos é aquele que, dentro do seu saco de competências, tem a sensibilidade para extrair o melhor de gerações tão díspares. Ele proporciona um ambiente harmônico, gerando tranquilidade para que cada profissional da sua equipe – independentemente da idade – possa brilhar e arriscar na medida do seu próprio apetite.

Se o líder tiver 30 anos de idade, saberá usar o colega de 55 como coach-mentor para as decisões difíceis ou momentos de crise. Este líder jovem e sábio também entenderá que o seu conservadorismo ou conhecimento limitado da tecnologia embarcada no negócio, são um preço baixo a ser pago para ter tanta experiência à disposição – consultores cobram bem mais!

Já o líder sábio coroa não tratará sua jovem equipe como se fossem garotos inconsequentes. Pelo contrário, entenderá que a fúria inovadora que trazem, se bem gerenciada, poderá transformar o negócio. Ele saberá dosar arrojo e cautela rumo ao sucesso.

Mas uma coisa é inevitável e aí a questão não é geracional: a estrutura e os processos organizacionais que conhecemos, estes sim, precisam se modernizar rapidamente. Eles foram montados por coroas – muitas vezes impostos por órgãos reguladores mais conservadores que os coroas da sua empresa. Mas os jovens simplesmente não toleram isso.

Nem eu, que sou coroa, aguento!

O jovem profissional de hoje nasceu resolvendo tudo em sua vida, com um smartphone na palma da mão. Como motiva-lo numa organização tradicional? Tenho a resposta e ela é simples: impossível.

São tantos degraus hierárquicos, que sabidamente atrasarão sua promoção, mais os incontáveis comitês que não decidem nada, fora os líderes pouco empáticos às suas necessidades de arrojo e um mundo de coisas lentas demais para quem é – e continuará sendo – acelerado demais. Isso tudo impossibilita manter estes jovens nas empresas tradicionais por muito tempo.

Tenho testemunhado, como professor, grandes organizações patrocinando caríssimos programas de estágios e trainees, para perdê-los para a primeira start-up que lhes piscar o olho.

Gostem ou não, caros leitores jovens e coroas, a convivência pacífica e produtiva intergeracional é necessária e inevitável desde que o mundo é mundo – e continuará sendo.

Mas esta harmonia produtiva só virá quando as organizações passarem a identificar rapidamente os novos sábios em suas equipes, promovendo-os com igual celeridade e transformarem suas estruturas e processos, da mesma forma que esperam transformações (para melhor) nos seus resultados.

E você, se encaixa como jovem, coroa ou sábio (de qualquer geração)?

Fernando Blanco

 

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